junho 02, 2005
O Divã
Iniciei há algum tempo um processo e caminho terapêuticos que deitam o meu corpo no divã para que a minha cabeça possa voar mais longe. É esse o espírito da coisa. Ouvir uma voz atrás da nossa cabeça para que aquela que a povoa por dentro possa sair mais clara e cristalina.
Fã que sou dos filmes do Woody Allen, estava acostumada ao cliché inerente à psicanálise muda. Aquela em que o paciente é deixado ao vogar dos seus pensamentos, não raras vezes, desconexos e sombrios, sem que haja uma palavra que o questione e se faça luz. Aliás, questionar é o conceito centralizador do processo. Pelo menos daquele que é honestamente conduzido pelas partes em terapia. Eu e ela. Estar em processo terapêutico não é mais que deixar que alguém nos ajude a pensar sobre nós mesmos.
Obviamente, procurar ajuda é também esperar resultados. E eles aparecem. Suponho que, no meu caso, não estava preparada para tamanha mudança porque nunca pensei que deixasse tanta coisa e tanta gente para trás. Não no sentido não valorativo de ignorar a sua importância formativa, mas apenas porque deixou de fazer sentido a forma como sempre nos relacionámos. De uma forma ou de outra, passamos a vida a ser deixados e a deixar alguém, por um conjunto gigante de razões. Importante mesmo é que a vida faça sentido.
Com ou sem divã.
junho 01, 2005
TPM# 11
Eu e o meu amor moramos no Marais. Mudámo-nos há pouco e tudo nos parece maior que a vida. Ainda estamos abúlicos perante a novidade e meio atoleimados com a penhora dos dias em Lisboa. Fugimos. Desaparecemos. Já não somos nós. Agora somos outros, melhores, porque chegámos a uma cidade viva e plena de opções. A deliquescência do viver português leva-nos a tristezas e hipérboles. Mas é sempre assim quando a insatisfação se torna a nossa matriz.
Aqui os nossos dias são simples porque são livres. As pechas também são muitas, mas os lápis não são azuis, o que nos permite passar quase incólumes perante a pesporrência alheia.
No Marais os dias são agora menos pesados. A Rue do Temple é a nossa milky road. Aqui, adquirimos uma centralidade que amamos, como amam as pessoas que fazem da liberdade o seu pilar.
Eu e o meu amor moramos no Marais e somos felizes.
Paris Orly
Esta história tem início há sete meses, altura em que a minha busca por emprego se intensificou. Dia a dia, mês a mês, foi um périplo cansativo pelos locais do costume. Jornais, net, amigos. Aos (poucos) empregadores que tiveram a «delicadeza» de me dar uma resposta, para além do agradecimento por isso mesmo, gostava de lhes dizer o seguinte: ter currículo e experiência de trabalho (razões apresentadas para a minha não colocação...), nunca poderá ser um handicap. E se não é uma mais valia, então temos pena. Mas por aqui não fico. Vou contribuir para o PIB de outro país.
Paris aqui vou eu.


