fevereiro 04, 2005

E por falar em liberdade de imprensa

Rumo à Tema para gastar os últimos dobrões da semana a deparo-me com a capa da Technikart, revista de francesa de «news, culture et société». A dita mostra-nos Michael Youn, génio da nova comédia francesa, pródigo em criar alter-egos, todos eles bons. O título que ilustra a (belíssima) foto de capa diz-nos o seguinte:
Films nuls, gags lourds, mais gros talent
Faut-il sauver le connard Youn?
Detive-me na palavra connard. A qual, em bom português, e no limite do excessivo, quer dizer filho da puta, sacana, cabrão e quejandos. Optando por uma escolha de palavras mais branda, e no limite da simpatia, connard poderá querer dizer idiota, parvalhão, tontinho, estúpido, e por aí fora.
Claro que o verdadeiro sentido da palavra só jornalista que assina a peça poderá explicar, mas, de repente, veio-me à memória os tempos em que também escrevia e o número de vezes em que me apeteceu por um título destes em determinadas entrevistas feitas a inomináveis idiotas. Enfim, fraternité, egalité, liberté e sem lápis azul...
Ora deixa cá ver a que horas sai o próximo vôo para Paris...

fevereiro 02, 2005

Delírio do Dia

-´Tou?
-Sim! Olá! Está boa? Que fazes?
- Olá! Olha, estava a pensar ir ali ao Georges, no Pompidou, beber um chocolate quente com marrons. De seguida, passava pela Place Des Vosgues para rever as figuras da Niki Saint Phal e ficava por lá mais um bocadinho para que a minha cadela possa chafurdar bem pelo lago... Estava também a pensar passar pela Galimard da Rue Boubourg para ir buscar uma edição antiga da Sociedade do Espectáculo, do Guy Débord que encomendei há séculos e ainda não tive tempo para passar por lá. Se ainda tiver forças depois destes quilómetros todos, gostava de atravessar o rio para o outro lado (até podíamos ir pelos Jardins do Louvre), para ir até Saint-Germain dés Prés. Gostava de encontrar o hotel onde viveu o Cossery, que ainda não consegui identificar. Olha, já agora, podias ser uma querida e fazias-me companhia ao jantar. My treat! Faço a minha especialidade: tomates recheados e uma tábua de queijos (cortados por mim!) com um bom tinto alentejano, para matar saudades da terra.
Convenci-te?

Starbucks do Dia

Decaf House Blend, to go...

Uma gaja sabe que está em TPM quando...

...vê o «Sorriso de Monalisa» (belhéq!) e chora no fim...

fevereiro 01, 2005

Girl n' Hood

Malucos. Normais. Agarrados. Desesperados. Mortos-vivos. Felizes. Remediados. Velhos. Ricos. Lindos. Bairristas. Felizes. Intrometidos. Genuínos. Amigos. Básicos. Inteligentes. Felizes. Novos. Bebés. Optimistas. Rezingões. Desonestos. Felizes. Pintas. Charmosos. Engraçados. Artistas. Betos. Felizes. Rastas.Crentes. Beatos. Médicos. Operários. Beatos. Cangalheiros. Felizes.
Este é o meu bairro.
Nunca o Dr. Sousa Martins supôs tamanha fauna...

janeiro 31, 2005

Corações ao Alto!

No sábado fui ao Santiago Alquimista ver os Corações de Atum. E gostei. Muito. Sábado marcou ainda a abertura da estação, da minha, já que o meu tempo de contenção e interiorização terminou, para dar lugar a um outro, mais festivaleiro, também ele mais consentâneo com as minhas sinapses emocionais.
De volta ao atum. O Lello Minsk é um tipo interessante. O Manuel João Vieira também. Às vezes gosto dos Irmãos Catita e dos Ena Pá 2000. Mas tenho a impressão que destes Corações vou gostar todos os dias. Tive pena que a varanda do Santiago não fosse mais baixa, mais intimista. Tal como me irritou que as pessoas não tivessem cuidado nem respeito por quem trabalhava em cima do palco e se ouvisse um ruído de fundo dispensável. De qualquer forma, adorei a ambiência jazzística do momento, mesmo que entrecortada pela rima emparelhada das letras de Manuel João Vieira (ou de «um professor de Santarém que se dedicava também ao Import-Export de sabonetes e agora está injustamente preso...»). Se fechasse os olhos por um momento, quase via ali um cantor romântico, um Tony de Matos deste século, por muito que Manuel João o tentasse abafar.
O Manuel João é um virtuoso. Consegue manter-se há anos num registo que se cola a uma minoria pouco quista num país onde o humor não abunda mas vigora a piadola. No meio das frases escatológicas há mensagens bonitas, mesmo quando a figura de Manuel João em palco nos tenta fazer acreditar que aquele não é o seu lugar, ou que é apenas um jeitoso a tentar ganhar a vida. Ele boicota-se, mas se calhar faz parte do «boneco».
Quanto à banda que o acompanha, mais séria, mais contida, achei-a genial. Os arranjos dados a alguns clássicos do jazz que tocaram, denotam um bom gosto e uma elegância que, francamente, não estava à espera de ouvir...Guitarra, contrabaixo, bateria, piano, e quando as imperiais e whiskies permitiam, um banjo ou trompete tocadas, ocasionalmente, pelo mestre Minsk.
Vou estar a tenta às marés deste pescado.

TPM # 8

Um dia acordei e disseram-me que havia a hipótese de não ter mais dias. O tempo tomou uma nova dimensão e quase tudo na minha vida se tornou dispensável. Excepto a família e uma mão de amigos.
Graças a eles, à medicina moderna e a mim mesma, as radiações que ainda vivem em mim parecem um walk in the park... em dias bons....nos outros, senti falta da falácia que é pensarmos que não vamos morrer nunca e que o corpo em que vivemos se vai manter para sempre como o vemos no espelho todas as manhãs. Estas são as mentiras. As verdades passam pelas mudanças que a assumpção da nossa mortalidade e a responsabilidade pelo nosso bem-estar provocam.
De uma forma muito tortuosa e cruel, isto foi o melhor que me podia ter acontecido.

Viagens na minha terra I

- Está livre? - disse ele, apontando para a cadeira.
- Sim, está.
Minutos depois:
- Trabalha aqui no Santiago Alquimista? - pergunta ele
- Não, só cá vim ver a banda
- Ah...e o que está a achar?
- Estou a gostar imenso. Não pensei que fosse assim, estava à espera que fosse tipo Ena Pá 2000 ou irmãos Catita, mas até estou a gostar bastante mais.
- Já conhecia a banda?
- Não, é a primeira vez que os ouço e vejo...
- Sabe, eu sou jornalista da revista Sábado e mandaram-me aqui fazer uma peça sobre este concerto e eu ando a pedir às pessoas que me digam em três linhas o que acharam do concerto - e dito isto saca do cartão com os contactos.
- Ok, eu mando um mail com as três linhas...
- Já agora posso saber o que faz?
- Sim. Tenho uma micro-empresa que trabalha na àrea da comunicação.
- Ah...então se calhar não vai dar...
- Bom, se me está a dizer que eu sou público qualificado e portanto não dá, eu agradeço, mas se está a querer insinuar que há conflito de interesses, eu devolvo-lhe o cartão sem problemas. - disse ela, sorrindo.
- Eu acho que você está muito na defensiva... - diz ele
- Qual é o contrário de estar na defensiva? - diz ela
- ...(levanta-se e vai-se embora a vociferar...)
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