setembro 30, 2004

Oye Tío, que cojones hombre!

O vernáculo não é por acaso e o castelhano muito menos. Fui ontem ver a mais nova obra prima do mestre Almodôvar (que muitos confundiram com a prima do mestre de obras...), e, mais uma, vez saí estarrecida do cinema.
O Mestre é o realizador mais surpreendente desta nouvelle vague do cinema-realidade. E isto porque quando acho que ele já não podia fazer melhor, eis que surge com novo filme, mais fantástico que o anterior, ainda que com o mesmo registo e universo.
Depois de Tudo Sobre Mí Madre, pensei que dificilmente conseguiria fazer um outro que o igualasse. Foi um filme de uma beleza rara. Com Hable Con Ella, repetiu a dose, e foi ainda mais longe no pormenor da realização. Com La Mála Educación foi para lá daquilo que eu, já sugestionada pela espiral ascendente, alguma vez pensei.
Só um esteta como o Mestre, só alguém de muito bom gosto como ele consegue pegar em temáticas tão fortes (morte de um filho, violação, homossexualidade, pedofilia, you name it) envolvê-las em papel kitsch e mostrá-las em papel seda. A este novo filme, trouxe um input técnico que potencia os pormenores, muitas vezes sórdidos, de uma história que de ficção tem muito pouco. A luz, e a falta dela, que garantem o dramatismo das cenas e a montagem sem mácula, são as áreas mais trabalhadas relativamente aos filmes anteriores.
Falar neste filme é não poder deixar de referir o incontornável Gaél Garcia Bernal, mexicano, lindo e irrepreensível num personagem muito bem construído. Ele e Jean-Paul Gaultier são as novidades do séquito de Almodôvar.
Enfim. Vão ver. Só até amanhã. No Cine 222. A sala cheira a caril e chamuças mas vale a pena.

Six Feet Above

Cenário: Casa Mortuária Fisher& Sons
Protagonistas: Nate Fisher e David Fisher

Nate: I think you should go out with him.
David: How do you know he´s gay?
Nate: I have a gaydar.

Six Feet Under, de Alan Ball, episódio 7

setembro 28, 2004

TPM # 1

«Estás a dormir?...acorda...vá lá...acorda...» Como ele não acordasse, levantei-me rumo à cozinha. É sabado, são 10 da manhã e a rua está silenciosa. Os carros costumeiros deram lugar a senhoras a caminho da praça, netas pela mão, em prazeirosa conversa com a vizinha do 2º andar, que o marido foi ontem fazer um TAC e diz que estava tudo bem. Desço à garagem, pego no carro e rumo à livraria onde, sábado após sábado, me guardam as revistas e jornais vai quase para um ano. Quase há tanto tempo quanto estou naquela casa da Rua das Flores. Quase há tanto tempo quanto o João decidiu engolir a timidez e falar comigo no meio da rua. Quase há tanto tempo quanto eu, tão tímida quanto ele, decidi falar-lhe também.
Chego a casa e o João já está a pé. Olha para mim, cabelo desalinhado e barba por fazer, e lembro-me de pensar que tenho o marido mais charmoso do mundo. Saladas e sumos naturais, que eu estou sempre em dieta, seguida da leitura e escuta das últimas novidades musicais. O João é melómano até à medula, ao contrário de mim que apenas percebo daquilo que gosto muito. Entre o ver e o ouvir, há outros sentidos que se vão apurando com o passar das horas. Fazemos amor como se a nossa vida dependesse disso. Como se fosse a primeira vez e, simultaneamente, a última. Noite. Os amigos chegam. Esta semana calhou-nos a nós acolher a «família». Falamos, rimos, bebemos, fumamos...Já com o espírito enebriado de substâncias e alegrias, os amigos vão e ficamos nós. Como de início. Como sempre.
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