setembro 24, 2004

Terminal

Estava eu cogitando sobre qual o Magnólia mais adequado ao meu estado de espírito (como se fossem todos muito diferentes, os Magnólias, entenda-se), quando a minha veia pequeno-burguesa me levou à Praça de Londres, que é uma praça internacional de grande patine.
À custa de me esfarrapar toda na Valentim de Carvalho, os senhores Castello Lopes tiveram uma atitude de grande elevação moral e decidiram ofertar-me um bilhete de cinema (gaste 15 contos em compras e ganhe mil paus num bilhete de cinema), o qual muito agradeci. A escolha não era variada. Entre a nova fantasia do Spielberg e a sequela do Bourne (muito contra-natura) decidi optar pelo Tom Hanks em detrimento desse éclair au chocolat que é o Matt Damon.
Já de nalga em riste nas cadeiras aerodinâmicas do cinema Londres, e preparadinha para mais um filme banal, eis que surge Tom Hanks, mais Forest Gump que nunca, num filme que «fala» sobre a amizade, a solidariedade, num sub-texto que aborda, precisamente, a falta delas.
O que me ficou, verdadeiramente, deste filme, foi a lembrança (que é tão estrutural em mim que às vezes me esqueço), do verdadeiro fascínio que tenho por aeroportos. Adoro. E adoro tudo. Devo ser das poucas pessoas que não se importa nada que os aviões atrasem. Adoro ficar a olhar e a imaginar o destino dos passageiros, o propósito das viagens. Estarão felizes? Emociono-me quando vejo os afectos de quem chega e quem parte, porque são lágrimas de quem, acima de tudo, espera. A ida. Ou a volta. Em trânsito para uma espécie de Finisterra, de Terra de Ninguém, onde estamos sem estar.

Talvez...

Talvez não haja razão nenhuma e toda eu seja demência, ou urgência, não sei...
Talvez não sejas tu, nem seja eu, nem tenhamos nós que existir
Talvez devesse simplesmente deixar fugir o momento, em que dentro de ti navego e sonho e acordo a rir

Talvez tu não sejas mais do que tudo aquilo que a minha imaginação quis criar
E não sejas bom nem mau, não sejas forte nem fraco, não tenhas por dentro tanto além daquilo que eu vejo por fora (e que, aqui entre nós, é pouco...)
Talvez a razão não me acompanhe nesta viagem e eu percorra a estrada apenas como um louco, sem pequenas questões nem grandes respostas.

E então, poderão perguntar-me:
- Mas afinal, porque gostas?
Talvez eu nesse instante possa responder que é justamente
esse não sei quê, que nasce não sei quando, vem não sei como e dói não sei porquê que me faz acreditar.

Luís Vaz de Camões

PS - Desculpem a intimidade do post, mas precisava deitar isto cá para fora, para fechar de vez uma gaveta há muito aberta em mim.
Até sempre D.

setembro 21, 2004

Faz hoje 30 anos...

...que um casal (ainda) apaixonado teve a sua segunda filha. Que a duras penas, mas com uma felicidade imensa, a minha mãe chorava de alegria ao mesmo tempo que o meu pai continha o verbo para não se desmanchar ali. Faz hoje 30 anos que o meu irmão, na altura com 4 anos, teve uma irmã e se salvou da tristeza que é ser filho único.
Trinta anos depois, continuo a mesma garota a quem a minha avó ensinou a bordar, a mesma criança que o meu avô levava para o trabalho, a ter as mesmas birras com a minha mãe em lutas de titãs que só as gajas entendem porquê, e a menina do papá em tudo o que faço. Trinta anos depois continuo mimada porque sempre tive a felicidade de poder fazer como queria, numa liberdade que a vida me permitiu e a qual lhe agradeço.
Porque os trinta se sentem (no corpo e no espírito), obriguei-me a olhar para trás para poder andar para a frente. Honestamente. Gostei. E estou grata pela família que tenho, pelos amigos que fui encontrando, pelos livros e música que me passaram pelas mãos, pelas pessoas que mos fizeram encontrar, pelos sítios onde estive e aos quais quero sempre voltar, mas também pela gente de merda que se cruzou no meu caminho, pelas frustrações, desilusões, tristezas, que essas também fazem parte.
Sei que com 30 vou ser melhor do que era com 20, e aos 40 serei melhor do que agora.
Obrigada a todos os que estão comigo.
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